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Empreendedorismo no exemplo da Algae

Nesta edição do jornal Valor Econômico abordou-se o empreendedorismo, algumas áreas de grande expectativa para empreender, entre elas a de meio-ambiente, e a importância de um detalhado plano de negócio. Sérgio Goldemberg, diretor da Algae, ressaltou essa importância de um detalhado plano de negócios para empresas de pesquisa e desenvolvimento.

Leia abaixo o texto na íntegra, ou clique aqui para ver o original em pdf.


Visão de Futuro

Jornal Valor Econômico
Terça-feira, 05 de outubro de 2010
Artigo de Jacilio Saraiva

Em 2015, o Brasil pode ter 8,8 milhões de pequenos negócios, 3 milhões a mais que a quantidade atua. Mais da metade, ou 55% das companhias, estarão no comércio, 34% delas vão atuar no setor de serviços e 11% na indústria. As projeções são do estudo Cenário para as Micro e Pequenas Empresas 2009/2015, realizado pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP).

Para atingir seus objetivos, os empreendedores brasileiros precisam driblar obstáculos como a falta de mão de obra especializada e poucos investimentos em inovação. “ As MPEs já representam 20% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e respondem por 56% dos empregos formais”, afirma Pedro João Gonçalves, consultor do Sebrae-SP.

A pesquisa revela ainda oportunidades de lucro em novos setores e uma mudança significativa na relação da quantidade de empresas por habitante no Brasil. Os números evoluíram de uma companhia a cada 42 pessoas, em 2000, para uma empresa a cada 24 habitantes, em 2015. A equação aproxima o país de índices registrados em 2000 na Alemanha e na França, que abrigam, respectivamente, 23 e 24 habitantes por negócio.

Para a entidade, o salto no número de empreendimentos pode ser atribuído ao crescimento econômico, além do aumento da confiabilidade institucional , como a sanção da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, em 2006, que ajudou a atrair investimentos para o setor. “A economia brasileira vem crescendo a partir da população”, analisa Renato de Andrade, consultor do Sebrae-SP.

Além da consolidação de setores tradicionais, a análise do Sebrae indica alguns nichos que terão um maior índice de crescimento nos próximos anos. Em destaque estão os materiais e equipamentos para escritório, com aumento de 12,5% ao ano no número de empresas, seguido da venda de autopeças (7,7%). Na área de serviços, o setor de informática deve engordar 12% ao ano e, na indústria, o ramo de fabricação de máquinas e equipamentos deve garantir uma taxa de crescimento anual de 7,5%.

Os analistas do Sebrae apontam ainda oportunidade para empreender a partir de novas tendências do mercado, como a educação on-line e serviços para idosos. Soluções ecológicas e produtos voltados para estética também serão áreas atraentes até 2015.

De acordo com a última pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), feitas em mais de 40 países, a taxa de empreendedores em estágio inicial (TEA) brasileira é a sexta maior entre países com o mesmo nível de desenvolvimento econômico: 15,3%. A TEA é formada pela proporção de pessoas com idade entre 18 e 64 anos envolvidas em empreendimentos com menos de 42 meses de atividade. O índice nacional aparece acima da média histórica do país, que é de 13%, e põe o Brasil à frente de países como Argentina e Uruguai.

O estudo do GEM também mostra que, aqui, para cada pessoa que abre as portas de um novo negócio por necessidade, dois brasileiros criam uma empresa por oportunidade. “Há uma transformação cultural entre os empreendedores”, diz Rodrigo Teles, diretor do Instituto Endeavor, entidade de apoio ao empreendedorismo. “Eles já se planejam melhor e querem saber se uma boa idéia vai gerar, realmente, um bom negócio.”

Foi por oportunidade que, no ano passado, Andrea Nunes abriu a Showtime, especializada na realização de feiras e negócios. “A empresa nasceu junto com um evento que fizemos para profissionais da indústria de entretenimento”, lembra Andrea, que já tem uma exposição marcada para julho de 2011. “Vamos fazr a primeira feira de licenciamento da marca do cartunista Mauricio de Souza. “ No início do ano, ela e os sócios vão à Europa negociar direitos de duas feiras, previstas para 2012.

Com seis funcionários e a expectativa de fechar 2010 com cerca de R$1 milhão de faturamento, a empresária investiu em ações inovadoras para diferenciar da concorrência, dominada por grandes companhias. “Desenvolvemos um sistema de gestão para empresas de feiras e terceirizamos funções para reduzir custos.”

Antes de deslanchar projetos, Andrea enfrentou dificuldades, como a captação de mão de obra. “Foi complicado contratar vendedores especializados, porque não existe uma formação em feiras no Brasil.” No escritório investiu em um ambiente integrado, para facilitar a comunicação entre os funcionários e a área de vendas.

Nos últimos anos, o Brasil viu um salto qualitativo no perfil do pequeno empresário, segundo Afonso Cozzi, coordenador do núcleo de empreendedorismo da Fundação Dom Cabral. “O empresário abre um negócio a partir da identificação de uma oportunidade, tem conhecimento do setor em que vai atuar, sabe da importância de uma boa rede de relacionamentos e é orientado para o futuro.”

Futuro é palavra recorrente nos corredores da 3R Corp, especializada em soluções de tecnologia, que investiu R$ 1,5 milhão no desenvolvimento de um sistema que mede a audiência de campanhas publicitárias. “Com a ajuda de uma câmera de vídeo acoplada a um monitor de TV, o produto é usado para registrar o tempo de atenção dado pelos consumidores aos anúncios”, explica o diretor Fábio Vitalino Filho.

As ferramentas da empresa também medem fluxo de pessoas em determinados ambientes e o tamanho de filas. A ideia da 3RCorp, que tem a rede Riachuelo como cliente, é ajudar as corporações a analisar, com velocidade, a aceitação de ações de marketing no ponto de venda.

Vitalino também desenvolveu, junto a marca de material esportivo Penalty, uma bola “inteligente”, resultado de investimentos de US$ 2 milhões. “A bola de vôlei vem com um chip que pode ajudar a esclarecer os lances duvidosos nas partidas”, explica o engenheiro, que está no Canadá pesquisando novidades na área de inovação. Com 35 funcionários, a 3RCorp pretende crescer 50% em 2010, em relação ao ano anterior, graças ao lançamento de novos produtos, já em fase de testes, e à expansão geográfica dos negócios.


Ter um plano de negócio é essencial para começar

Empreender em uma área com um futuro promissor foi o que motivou o engenheiro agrônomo Sérgio Goldemberg a abrir, em 2009, a Algae Biotecnologia, especializada na exploração de algas para a produção de bicombustíveis. “A expectativa é que os primeiros sistemas de produção de microalgas comecem a gerar receita a partir de 2013”, afirma.

A empresa já etm um projeto de pesquisa e desenvolvimento para os próximos anos, avaliado em R$ 6 milhões, e parte para projetos-piloto em 2011. “A expectativa é que até 2015 a produção de biocombustíveis com algas torne-se uma realidade comercial.”

O cultivo das plantas é feito em reatores dentro de laboratório. As algas são alimentadas com nutrientes, dobram de tamanho a cada dois dias. “Elas geram uma grande quantidade de biomassa, rica em óleo, que pode ser extraída e transformada em biodiesel para a aviação.” O composto, rico em proteínas, também pode ser utilizado na alimentação animal e na despoluição de efluentes em estações de tratamento de água.

A Algae foi criada em 2009, de uma ideia que Goldemberg apresentou ao grupo Ecogeo, um dos apoiadores da empresa que atua a mais de 30 anos no mercado ambiental. “Também temos suporte do BNDES, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).”

No próximo ano, a Algae, que tem quatro funcionários, pretende implantar um projeto-piloto no interior de São Paulo. “A contratação de novas atividades junto a agentes financeiros deve permitir a ampliação dos trabalhos de pesquisa e o aumento da equipe para até 15 pessoas, a maioria mestres e doutores.” Para azeitar a administração das empresas na fase de crescimento, o gerente da Algae aconselha um plano de negócio claro e detalhado, pata que colaboradores e investidores trabalhem em sintonia.

Conforme Rubens Batista, sócio da Kaph Financial Group, especializada em melhoria de processos e gestão financeira, as dificuldades mais comuns que travam os planos dos pequenos empreendedores no Brasil são “colocar no papel” um modelo de negócio e criar uma pessoa jurídica. “A burocracia ainda é um empecilho. Muitas vezes, o futuro empresário tem clientes, recursos técnicos e operações alinhavadas, mas o tempo para vencer a papelada o obriga a perder oportunidades.”

Segundo o especialista, não há como sobreviver em ambiente competitivo sem usar o tripé gente treinada, tecnologia e processos de trabalho. “A inovação é um fator estratégico em qualquer organização, principalmente no estágio inicial da empresa quando é preciso se diferenciar dos concorrentes.”

Para Claudia Bittencourt, diretora do grupo Bittencourt, especializada em expansão de negócios, há no país um movimento de pessoas mais jovens em direção à carreira de empreendedor. Segundo pesquisa do GEM, 52,5% dos empreendedores no Brasil têm entre 18 e 34 anos. Mas antes de se aventurar no mundo do negócio próprio, a consultora aconselha ao futuros empresários fazer um plano de negócio e uma pesquisa sobre a concorrência. “É necessário criar diferenciais competitivos e estabelecer um posicionamento estratégico para a empresa.”


10/2010
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